Por Denise Maria Vendramini

Baseado no livro de Maggie O’Farrell (2021), o qual leva o mesmo nome, Hamnet narra uma história – com elementos verídicos e inferências – do renomado dramaturgo inglês, William Shakespeare, e sua esposa, Agnes, os quais perderam um de seus filhos, que dá nome à trama, por volta dos 11 anos, acometido pela peste bubônica, e como essa tragédia atravessa o casal e influencia a criação de uma das peças mais conhecidas do autor, Hamlet.
William, ainda jovem, muda-se com os pais para um povoado no interior da Inglaterra em função de dívidas financeiras de seu pai. Neste local, conhece Agnes, filha de uma família local. Após ambos casarem-se e terem filhos, insatisfeito com a vida que o campo lhe oferecia, William se muda para a capital do país, Londres, onde começa a se aproximar do ofício da dramaturgia, e, sem conseguir levar a esposa e os filhos consigo, permanece dividido entre as constantes visitas a eles, pelos quais demonstra nutrir importante afeto. Com isso, no momento do repentino adoecimento do filho, William estava distante e só consegue chegar a tempo de se despedir de seu corpo, já sem vida. Ele busca retomar rapidamente o seu cotidiano em Londres, onde se debruça sobre o desenvolvimento de novas peças, até a criação da peça Hamlet.
Desde o início da história, quando William está desbravando seus ofícios, é dada ênfase à figura de seu pai como bastante violenta, com diversas cenas nas quais ele externa violência física e falas depreciativas dentre outras coisas, de que o filho seria um inútil, levando William, em um determinado momento, a também atacá-lo fisicamente por não tolerar as constantes humilhações sentidas.
Segundo Melanie Klein (1940), a criança, em seu desenvolvimento emocional primitivo, passa por estados mentais comparáveis ao luto do adulto, na medida em que precisa recorrer ao teste de realidade junto ao objeto externo a fim de confirmar a integridade do mesmo após sentir ter aniquilado o objeto interno mediante frustrações vividas. Dessa forma, o indivíduo experimenta, na interação com os demais, a confirmação ou não daquilo que fora internalizado e, portanto, vivências prazerosas, de amor e confiança conferem segurança interna ao bebê e o ajudam a transpor o sentimento de perda, enquanto experiências desagradáveis confirmam as ansiedades a respeito da aniquilação interna do objeto.
Diante disso, é possível pensar acerca dos impactos das características repulsivas dessa figura primária tão importante no desenvolvimento emocional primitivo de William. Frente a exeperiências reais desagradáveis, fantasias de aniquilação direcionadas a essa figura podem ter se potencializado e se confirmado, levando à sensação da incapacidade de preservação do objeto interno pai, o que leva a uma dificuldade na construção da confiança interna acerca da capacidade de preservação desse e de outros objetos internamente.
Imediatamente após vivenciar a perda do filho, William demonstra a necessidade de retomar atividades cotidianas, retornando à Londres para trabalhar e afirmando que a vida não poderia parar e que haviam outros elementos importantes para ele dar continuidade, configurando um movimento de negação, defesa maníaca que consiste em negar a ocorrência dos fatos a fim de evitar o contato com o potencial sofrimento emocional advindo da experiência de perda (SEGAL, 1975).
De acordo com Klein (1940), as experiências de perda posteriores tendem a se encaixar no padrão já conhecido pela realidade psíquica predominante. Com a morte do filho, William revive em fantasia a aniquilação da figura paterna e, sentindo também não ter condições de preservar o objeto filho internamente, utiliza-se da negação para não entrar em contato com essas emoções.
Essa defesa perdura por um tempo e parece funcionar para manter William distanciado do sofrimento e retomar a sua vida. Até que em uma conversa tida entre o casal cerca de um ano após a morte de Hamnet, William verbaliza: “Ele não pode ter simplesmente sumido, ele só precisa que eu o ache. Ele deve estar em algum lugar”. Essa fala representa a tentativa intensa de reparação do objeto perdido, que não pode ser atingida diante da mobilização das defesas maníacas (Klein, 1940).
Envolto nas reflexões de William, pouco tempo depois, acompanhamos no filme a divulgação de uma nova peça de drama criada por ele, a peça Hamlet. Segal (1975) evidencia que o sofrimento do luto vivenciado de forma mais integrada, e os impulsos reparadores desenvolvidos para restaurar os objetos amados, constituem a base da criatividade e da sublimação.
Assim, pode-se pensar ter havido uma integração dessa percepção dos impulsos destrutivos de William como parte constituinte de seu psiquismo, que não apresentam correspondência na realidade e que também coexistem com o amor pelo objeto, possibilitando a construção da segurança interna relacionada à capacidade de preservação do objeto, a superação da defesa maníaca de negação e a canalização do sofrimento pela perda do filho na criação da peça que alude à sua morte. Isso sugere possibilidade de se aproximar novamente do objeto filho e repará-lo de maneira efetiva, ou seja, reconstruí-lo e revivê-lo internamente.
Durante a apresentação da peça, enquanto está nos bastidores, William apresenta um choro catártico. Após reviver o filho com a sua arte, ele parece conseguir experienciar a tristeza pela perda objetiva do mesmo, sem sentir que o aniquilou internamente.
Quando o sujeito enlutado consegue confiar em sua bondade e na dos outros, as defesas maníacas diminuem e os medos perdem a força, favorecendo a experimentação completa de seus sentimentos. Com isso, o sujeito pode sentir renascer o seu amor pelo objeto, diante da confiança de poder mantê-lo preservado internamente (KLEIN, 1940).
Para Klein (1940), alguns indivíduos que não conseguem viver o luto podem buscar escapar da crise maníaca depressiva por meio de severa restrição da vida emocional. Porém, o equilíbrio emocional pode ser atingido a depender da capacidade de direcionar para outras coisas o amor que nega ao objeto perdido. Pode-se dizer que o interesse de William pela dramaturgia pode ter absorvido parte do amor direcionado ao filho. Essas sublimações podem guardar traços maníacos porém também podem funcionar como conforto e alívio da culpa, já que, através dessa atividade, o objeto “filho”, que havia sido perdido, pode ser restaurado até certo ponto e mantido na mente inconsciente.
Isso ganha força diante da forte comoção que a peça desperta na plateia, que se une dando as mãos à Hamlet na cena em que ele expressa seus conflitos. Assim, a dor que não pode ser sentida por William, inicialmente, frente à perda do filho, parece ser, posteriormente, sentida por toda a plateia, bem como a peça segue despertando interesses e emoções séculos após a sua escrita.
REFERÊNCIAS
KLEIN, M. O luto e suas relações com os estados maníaco-depressivos (1940). In: KLEIN, M. Amor, culpa e reparação. Rio de Janeiro: Imago, 1996, cap. 20, p. 385-412
O’FARRELL, M. Hamnet. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.
SEGAL, H. A posição depressiva. In: SEGAL, H. Introdução à obra de Melanie Klein. Rio de Janeiro: Imago, 1975, cap. VI, p. 80-94.
Denise Maria Vendramini é psicóloga formada pela USP Ribeirão Preto. Especialista em Psicologia da Saúde pela FMRP-USP e Especialista em Cuidados Paliativos pela UFSCar. Cursando especialização em Teorias e Técnicas Psicanalíticas pelo IEP-RP, atuando como psicóloga clínica e em serviço público na Prefeitura de Pontal.