Por Júlia Marini Bertoloto

O filme Frankenstein, lançado em 2025 pelo cineasta mexicano Guillermo del Toro, é
marcado pela sensibilidade presente em suas cenas e pela forma como aborda as tensões, as
ambiguidades e complexidades das relações entre os personagens, especialmente na relação
com a Criatura. Essa maneira de construir as relações despertou meu interesse e, a partir
disso, surgiu o desejo de compreender mais profundamente o desenvolvimento da Criatura
para além de suas ações e de sua aparência, buscando investigar seu mundo interno, os
conflitos que permeiam sua vivência e sua maneira de estabelecer vínculos.
O filme é dividido em três partes, a primeira retrata um momento marcado por cenas
de luta e morte entre a Criatura e alguns homens, enquanto Victor Frankenstein, gravemente
adoentado, permanece escondido. As próximas duas partes do filme são cruciais, pois uma é
a versão de Victor e a outra da Criatura, nas quais cada um relata sua própria compreensão
dos acontecimentos e dos sentimentos envolvidos na relação que construíram.
Na parte do filme contada por Victor, podemos acompanhar sua busca voraz por
conhecimento, pesquisas e experimentos com partes de cadáveres em busca de ressuscitá-los.
Existe um desejo e empenho incansável de trazer de volta à vida um ser humano já falecido.
Sendo possível associar o desejo de Victor de superar e reparar a morte, como uma forma de
lidar com suas perdas, bem como o desejo de ultrapassar o pai na aquisição e produção de
conhecimento.
Logo, toda a dedicação e paixão de Victor na criação de sua Criatura parece se
dissipar assim que ela nasce. A Criatura passa a existir já como um homem forte, de grande
porte físico e capaz de se locomover, mas não corresponde à fantasia de um ser maduro e
plenamente desenvolvido como o esperado. O que se apresenta, é uma Criatura que depende
do outro para ser acolhida em suas necessidades mais fundamentais. Em seu olhar e em seus
comportamentos expressa um desejo por atenção, cuidado e reconhecimento diante de seus
impulsos e necessidades.
Nesse sentido, podemos recorrer ao conceito de rêverie, proposto por Bion (2021),
para pensar a capacidade do cuidador de receber as experiências emocionais brutas do bebê e
transformá-las em algo que possa ser posteriormente tolerado, significado e pensado. A
Criatura, embora apresentasse um corpo já desenvolvido, encontrava-se diante de
experiências que ainda não conseguia compreender ou elaborar por si mesma, necessitando
de um outro que pudesse exercer essa função de continência e transformação. Assim,
apresentava demandas próprias do início da vida, à semelhança de um bebê que, para
sobreviver psiquicamente, depende da presença de um outro capaz de reconhecer, acolher e
responder às suas necessidades.
Entretanto, Victor se assusta diante daquilo que criou e recua justamente quando a
Criatura mais necessita de sua presença, interrompendo a possibilidade de constituição de
uma relação de cuidado e afeto. A maneira como a Criatura se relacionava tanto com Victor
quanto com os objetos ao seu redor, marcada pela curiosidade, pela ingenuidade e pelo
destemor, acabava por despertar em Victor sentimentos de irritação e medo. É nesse contexto
que ele afirma ter criado “algo terrível”, e a Criatura passa a carregar o registro de ser
reconhecida como um “monstro”.
Com as contribuições de Bion (2021), podemos compreender que a Criatura se
encontrava diante de experiências emocionais que ainda não conseguia elaborar ou
comunicar por meio do pensamento e da palavra, aproximando-se do que o autor denomina
elementos-beta. A ausência de uma função continente dificulta a transformação dessas
experiências e o desenvolvimento da função-alfa, necessária para a simbolização e o
pensamento. Assim, aquilo que ainda não pode ser simbolizado encontra outras formas de
expressão, manifestando-se principalmente por meio de suas ações, que podem parecer “sem
sentido” para Victor. Desse modo, a percepção da Criatura como “monstro” ocorre
justamente em meio à sua fragilidade e à dificuldade de comunicar e elaborar suas próprias
experiências.
É no olhar de Elizabeth, cunhada de Victor, que a Criatura encontra algumas de suas
primeiras experiências de reconhecimento. Ela tem um interesse genuíno por ele,
aproxima-se, observa e busca compreender mais sobre quem é a Criatura e o que ela
vivencia. Embora breves, esses encontros oferecem momentos significativos de acolhimento
e atenção, possibilitando algo diferente da rejeição vivenciada até então, já que o olhar de
Elizabeth não foi imediatamente reduzido à sua aparência ou seus comportamentos ingênuos.
Avançando para a terceira parte do filme, a versão então contada pela Criatura, vemos
como ela consegue sobreviver e se desenvolver. Em seu percurso, passa por diferentes
experiências e ainda vivencia muitas situações de dor e rejeição, mas ela consegue se
esconder em uma fazenda, onde passa a observar a dinâmica de uma família e as formas de
cuidado e afeto presentes entre seus membros. A partir dessa observação, especialmente da
relação dos familiares com as crianças, começa a aprender algumas palavras e ao mesmo
tempo, passa a querer ajudar a família, e secretamente começa a levar lenha e cuidar dos
animais. E assim, o membro mais velho da família, um senhor cego, percebe sua presença e o
identifica como um “espírito da floresta”.
O senhor encontra a oportunidade de ficar sozinho com a Criatura e,
intencionalmente, busca estabelecer uma relação com ela. A partir disso, os dois começam a
construir uma troca de experiências, na qual ele aceita receber seus cuidados e, ao mesmo
tempo, passa a ajudá-la e incentivá-la no desenvolvimento de novas funções, interesses e
capacidades. É assim que vemos a Criatura encontrar a possibilidade de aprender a se
comunicar e a se expressar. Por meio dos livros que lhe são apresentados entra em contato
com as palavras, aprende a formular frases e, progressivamente, junto do senhor passa a
encontrar formas de expressar aquilo que vivencia, além de continuar fornecendo cuidado ao
ambiente.
A partir dessa relação, podemos compreender como a função continente entre ambos
favoreceu o desenvolvimento da função alfa da Criatura. De acordo com Bion (2021), essa
função possibilita que as experiências emocionais sejam gradualmente integradas, adquirindo
significado e tornando-se pensáveis. Nesse sentido, observa-se na Criatura uma ampliação de
sua capacidade de aprender com as próprias experiências, bem como formular
questionamentos acerca da vida. Esse movimento indica uma crescente capacidade de
compreender, elaborar e atribuir significado às experiências vivenciadas.
Contudo, a Criatura vivencia a perda de seu amigo e se vê novamente solitária. Nesse
momento, parte em busca de Victor, movida pelo desejo de encontrar explicações para sua
existência e de estabelecer novas relações. Entretanto, ainda acompanhamos momentos de
intenso sofrimento, conflitos, fugas e mortes. Até que Victor percebe não ter mais como fugir
da Criatura, dispondo-se finalmente a encontrá-la. Esse encontro final é o primeiro e único
momento em que Victor consegue sustentar emocionalmente a presença da Criatura. Ao
ouvi-la, ele também assume os próprios medos e a culpa, reconhecendo sua fragilidade como
homem e criador. Embora breve, esse encontro proporciona a Criatura uma experiência de
continência que, durante toda a sua trajetória, havia buscado em seu criador.
Ao observar, no filme, o desenvolvimento psíquico da Criatura, podemos
compreender como o cuidado com suas necessidades, a atenção, o investimento afetivo e a
construção de relações capazes de sustentar suas angústias, impulsos e momentos de
desorganização psíquica foram fundamentais para seu desenvolvimento. Nesse sentido, a
Criatura só pode, de fato, nascer e constituir-se psiquicamente a partir de olhares capazes de
enxergá-la para além de sua aparência, reconhecendo sua singularidade e demonstrando um
interesse genuíno por sua existência.
REFERÊNCIAS
FRANKENSTEIN. Direção: Guillermo del Toro. Produção: Guillermo del Toro; J. Miles
Dale; Scott Stuber. Estados Unidos; México; Canadá: Netflix, 2025. Filme (149 min).
BION, Wilfred R. Aprender da experiência. Tradução de Ester Hadassa Sandler; revisão
técnica de Paulo Cesar Sandler. São Paulo: Blucher, 2021.
Júlia Marini Bertoloto é Psicóloga, atuante na clínica, realiza atendimento de adolescentes, adultos e idosos. Formada pela UNAERP-RP. Especialista em Teorias e Técnicas Psicanalíticas pelo IEP-RP. Membro e atualmente integrante do Departamento de Relações Institucionais do IEP-RP.