Por Lia Brioschi Soares

Em uma recente viagem com a minha família, prestei atenção em um fenômeno que foi entrando em meus pensamentos aos poucos durante nossa estadia na pousada, mas que me acompanhou em quase toda a viagem e ficou dentro de mim como uma sensação importante de satisfação, de pertencimento, e principalmente, de processo.
Eu fui viajar com meu filho de dois anos e alguns parentes mais próximos. Ficamos todos instalados na mesma pousada, que tinha um clube ao lado e que seria esse o passeio principal para as crianças.
Quem convive com crianças pequenas, sabe que elas não têm parada: gostam de explorar, de conhecer, de testar, de ir, de voltar, pular, correr, quantas vezes for o suficiente para o corpinho delas cansar. E ainda assim, tem horas que elas querem mais. Em nosso primeiro dia, já pela manhã, conforme as demandas do meu filho e as minhas iam aparecendo, a gente ia resolvendo juntos: acordar; preparar o mamá da manhã com as vitaminas dele; trocar fralda; tirar o pijama; arrumar as bolsas para ir ao clube; descer para pegar a toalha na tenda das toalhas; falar bom dia e conversar um pouco com a vovó e vovô que encontramos no caminho; voltar no fraldário para trocar a fralda de cocô; passar repelente e protetor; tomar café da manhã no restaurante com os tios e os primos; comprar uma água para levar; subir no apartamento novamente porque eu esqueci o boné dele; chegar no apartamento correndo porque ele pediu para corrermos; pegar o boné; voltar e pegar o elevador para descer; passar no bar para comprar um salgado para o lanche da manhã e UFA, podemos ir para o clube!!!
Isso eram quase 10 horas da manhã. Como assim, eram quase 10 horas da manhã? Meu filho despertou às 6h15 e nos levantamos logo em seguida para começar o dia!!! O que fizemos nesse tempo que parecia somente a preparação para ir ao clube?
Nesse momento, me dei conta de quantas coisas havia feito, que em um nível racional, eu sabia que eram muitas, mas me veio algo mais significativo que isso: quanto tempo eu passei com meu filho!!! Lembrando que ENQUANTO ele mamava, ele me pedia para beijar seu pezinho, ou ENQUANTO íamos até o fraldário para trocar o cocô, ele pediu que cantássemos a música “Vamos passear na floresta, enquanto seu lobo não vem” e fomos inventando ‘desculpas’ para o seu lobo não estar pronto ainda!!! Que tempo precioso!!!
Em tempos de férias, foi mais fácil olhar e perceber a importância desses momentos ENTRE os pontos de partida e as chegadas. Em termos psicanalíticos, esse “entre” é o próprio espaço onde a mente humana se expande para processar a vida. Bion (1962), ao teorizar sobre os vínculos emocionais básicos da experiência humana (Amor, Ódio e Conhecimento), postulou a existência do Vínculo K (Knowledge). Estar em K não significa apenas acumular informações racionais sobre o outro, mas, sim, um estado ativo de abertura para conhecer a experiência viva à medida que ela acontece.
Essa abertura para o “durante” se conecta profundamente com o que Ogden (2010) descreve como a capacidade de sonhar a experiência. Para Ogden, “sonhar” não é um ato restrito ao sono, mas sim o trabalho mental contínuo e inconsciente que fazemos para processar e digerir nossas vivências mais profundas. Quando o brincar e o real se misturavam entre chegar no andar do apartamento e entrar no quarto para pegar o boné esquecido — correndo, rindo, fazendo cócegas —, nós estávamos, juntos, “sonhando” aquela manhã. Transformamos o fato bruto da concretude em uma experiência viva e compartilhada, gerando novos sentidos, onde antes haveria apenas pressa ou frustração.
Entre sair do elevador e ir até o bar comprar água, pudemos observar o que havia ao nosso redor, ver cores, coisas novas, e eu pude explicar a ele como as coisas funcionam. Esses processos preciosos, que são o ENTRE, demoram, levam tempo, e nós só pudemos viver essa experiência pois estávamos dispostos a nos encontrar DURANTE o caminho, sem tanta preocupação com a chegada. (Será esse também o processo de uma análise?).
A satisfação que isso me trouxe me deixou sem palavras, que só agora estou podendo transformar em texto. Especialmente porque esse é o processo precioso da vinculação, da aproximação que empodera e dá vida. Só foi tão belo porque eu estava com ele e ele estava comigo. Bion (1962) nos lembra que o Vínculo K é doloroso porque exige suportar a frustração do desconhecido antes que o sentido emerja; e Ogden (2010) aponta que a incapacidade de sonhar nossas vidas nos condena a uma existência bidimensional, presa à literalidade dos fatos.
Ou seja, os processos preciosos precisam de dois: esse ENTRE que engrandece e faz crescer precisa de mãe e filho, de analista e analisando — mentes que se encontram para dar contorno e sonho àquilo que é vivido.
Essa é nossa viagem a dois: que acontece todos os dias, o dia todo, quando estamos bem acompanhados, abertos aos entres, enquantos e durantes. O Vínculo K e o sonhar compartilhado nos mostram que são esses momentos que permanecem e nos estruturam; as chegadas são efêmeras!!!
REFERÊNCIAS
BION, Wilfred R. Aprendendo com a experiência. Tradução de Alejandro Stuart. Rio de Janeiro: Imago, 1962.
OGDEN, Thomas H. Essa arte da psicanálise: sonhando sonhos não sonhados e gritos interrompidos. Tradução de Elsa Oliveira Dias. Porto Alegre: Artmed, 2010.
Lia Brioschi Soares é psicóloga, formada pela Universidade Federal de Santa Catarina, Especialista em Psicologia Clínica e Doutora em Ciências pela Universidade de São Paulo. É Membro Titular do Instituto de Estudos Psicanalíticos de Ribeirão Preto, atuando como psicóloga clínica e supervisora.