Por: Ana Flávia de Oliveira Santos

“Esta é minha sobrinha Veronica a quem fotografei em um campo que vira há muito tempo. Pedi a ela que corresse e dançasse. Ela usava um sininho, que eu escutava. Na verdade, fotografei o sininho, mas este não pode ser visto. Trata-se então, de uma fotografia do invisível” (Bavcar, 2002 apud Poppe, 2014, p. 23).
Em seu Seminário de Paris, Bion (2001) fala sobre o sonho. Para o autor, muitos pacientes não o levariam a sério, embora admitam terem sonhado. Não se dispõem a dizer “[…] onde foram durante o sonho, ou o que viram” (Bion, 2001, p. 97). Apenas sonharam, não relacionando significado sequer, que dirá, então, algo maior.
Bion não apenas o reconhece, como lhe confere outro estatuto. Em outras palavras, ousa sonhar o sonho. Sonhar, para o autor, não se restringe à atividade que ocorre ao dormir. Para Bion (2001), sonha-se dormindo ou acordado; o terror seria não poder sonhar. Pois, ainda que acordado, não se poderia dizer desperto. Tampouco, estaria dormindo. Esse estado, para o autor, entre o sono e a vigília, consciente e inconsciente, corresponderia a um estado mental que não permitiria sonho.
Sonhar, então, constitui uma função psíquica. Se inexistente, manteria as experiências em estado bruto, sem elaboração. Sonhar, então, impõe-se à psique para tornar pensável as experiências emocionais. Estar ou não conseguindo sonhar a própria experiência – e isso também não caberia ao analista? – como horizonte de interesse, mais do que o conteúdo manifesto (do sonho ou do relato na sessão). Ao que Ogden (2013) acrescentaria ser necessário observar aspectos de vitalidade ou desvitalização.
Se, para Bion, sonhar é tornar algo pensável, não basta a reprodução do que o autor enuncia enquanto teoria a ser assimilada e acumulada. Bion nos convoca a sonhar o seu pensamento. Do contrário, corre-se o risco de esvaziar a sua potência transformadora, tornando-o inócuo. E esse é o ponto: o pensamento é do Bion; seu uso dependerá de ter podido ser sonhado, vivido, sentido, tornado próprio não como origem, mas enquanto trabalho psíquico a ser realizado. Para o autor, “[…] não importa o quanto não seja científico” (Bion, 2001, p. 102).
Bion (2001) incentiva recorrermos ao linguajar dos artistas, acrescentando que conhecer a si contribuiria na escolha do vértice, reconhecendo que tipo de artista o analista é – músico, pintor, escritor, ceramista, por exemplo. O consultório, para o autor, seria o ateliê do analista. Em meu próprio, recorro ao título de uma narrativa de Clarice e homônimo ao seu livro, “Onde estivestes de noite” (Lispector, 2020), para sonhar o sonhar de Bion – seria o sonho dentro do sonho?
Se, contemporaneamente, a fala do paciente pode ser escutada como sonho, podemos perguntar-lhe, em coro com Clarice: “Onde estivestes de noite?” (Lispector, 2020), e não apenas por onde estivera enquanto dormia. A noite enquanto o desconhecido. O escuro como o que não pode ser habitado, porque temido ou não sabido. Para Alvarez (1996, p. 1) “[…] a vida noturna, a linguagem do sono e dos sonhos”, “[…] a noite em volta de nós e a noite dentro de nós […]” (Alvarez, 1996, p. 11) e até a “[…] noite dentro da noite […]” (Alvarez, 1996, p. 53); “[…] a escuridão interior, a escuridão dentro da mente” (Alvarez, 1996, p. 33). Ou o que ainda não tomou forma por não ter sido sonhado.
Antes de “[…] onde foram durante o sonho, ou o que viram” (Bion, 2001, p. 97), se puderam sonhar, se puderam ver. Sonhar como verbo, conjugado em primeira pessoa, em nome próprio: eis o trabalho psíquico. E não como substantivo, apenas como objeto de interpretação.
Onde estiveste? Na experiência ou fora, longe dela? Repito: enquanto sonhavas, onde estiveste? Ou estivestes? Também, no plural, pois não se trataria de partes, dimensões de si? Estiveste em algum lugar ou em um não-lugar? Ou em lugar algum? Onde estiveste? Se é que estiveste em algum lugar!
Quais as tuas andanças pela tua vida psíquica? Por onde andas e com quem vais? Tu a habitas? Que experiências atravessaste sem que se tornassem experiências? Onde estiveste durante o trabalho psíquico do sonhar? Que parte de tua experiência encontrou abrigo na noite para se transformar em sonho e, então, em pensamento? Que parte permaneceu sem continente, sem elaboração, sem companhia? Que parte não sonha, seja de dia, seja noite? Que parte estremeceu?
A noite deixa de ser um período do dia para tornar-se uma área psíquica a ser habitada. Um espaço em que a experiência emocional pode ser metabolizada/transformada em sonho, em pensamento e em vitalidade psíquica. Talvez o terror, para Bion, não seja a escuridão da noite, mas a impossibilidade de transitar por ela. Pois poder estar em algum lugar implica mobilidade, sonhos em trânsito.
“Onde estivestes de noite?” (Lispector, 2020) como pergunta a ser sustentada, mais do que respondida. Afinal, sonhar tem seus mistérios… Há sempre restos vestigiais, rastros, lapsos… anúncio de vida pulsante em algum lugar. Há inclusive beleza: “Esse elemento estético da beleza torna tolerável uma situação muito difícil” (Bion, 2001, p. 102). É menos o lugar onde se pode ter sonhos, do que onde o sonhar se faz morada. E se interroga quanto à impossibilidade do verbo. Se no princípio era o verbo, para haver algum começo, embora impreciso, é preciso ousar sonhar, adentrar a noite psíquica e seus mistérios.
Onde estiveste tu enquanto não podias sonhar?

Referências
ALVAREZ, A. Noite: a vida noturna, a linguagem da noite, o sono e os sonhos. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
BION, W. R. Um seminário realizado em Paris, 10 de julho de 1978. Revista de Psicanálise, Porto Alegre, vol. VIII, n. 1, p. 91-102, abr. 2001.
LISPECTOR, C. Onde estivestes de noite? Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2020.
OGDEN, T. Analisando formas de vitalidade e de desvitalização. In: OGDEN, T. Rêverie e interpretação: captando algo humano. São Paulo: Escuta, 2013.
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Ana Flávia de Oliveira Santos – Psicóloga formada pela FFCLRP-USP (CRP 06/90086), Mestre em Ciências – Área Psicologia (FFCLRP-USP) e Especialista em Psicologia Clínica (CFP). Membro Titular do Instituto de Estudos Psicanalíticos de Ribeirão Preto – IEPRP. Psicóloga clínica e judiciária.