Sueños adolescentes, 2023
Incerta Gloria

Que rolê é esse tal de “adolescer”??

Para iniciar esse texto, gostaria de convidar os leitores a buscarem em suas memórias a própria adolescência. Como vivenciaram? Como se deram conta de que estavam em uma nova fase? Como foram “adolescendo”?

Recentemente, o tema adolescência permaneceu em alta devido a série estrelada pela Netflix, em que um adolecente de 13 anos, Jamie, assassinou uma colega de escola. São quatro episódios que trazem o ambiente familiar de Jamie, seus pais e sua irmã, a escola, as redes sociais, bullying, o casal parental, o atendimento psicológico com o adolecente, entre outros aspectos importantes. Uma série bem construída e que tocou muitas pessoas com questões atuais que realmente precisam ser pensadas e cuidadas.

Diante disso e do meu contato direto com pré adolescentes e adolescentes, sinto-me estimulada a estudar  cada vez mais essa fase tão intensa do desenvolvimento humano. É uma fase por si só conturbada e que na atualidade soma-se a presença da internet, mais especificamente as redes sociais.

Para pensarmos a adolescência precisamos voltar um pouco no início da vida psíquica do indivíduo. A relação mãe e bebê parte de uma fusão total, em que formam uma única unidade e o bebê não tem competência para diferenciar o eu e não eu. Na sequência, outros objetos passam a ser investidos e torna-se possível uma discriminação do próprio eu. A partir disso, o bebê começa a ter autonomia e independência.

De forma semelhante, adolescer é novamente separar-se dos objetos primitivos internalizados, reorganizá-los e se dispor a fazer novos laços. É um período curto com muitas mudanças físicas, com os hormônios em ebulição, e também emocionais com os novos focos de interesse. É preciso se despedir do corpo de criança, de objetos e entre outras perdas e se abrir para o novo, o desconhecido. Os pais, até então infalíveis e detentores de todo conhecimento, começam a ser questionados e percebidos como pessoas reais, suscetíveis a erros e vacilos. Se tudo der certo, esse é o caminho esperado e saudável de desenvolvimento, pois assim eles conseguirão se separar dos pais (relação dual) e buscar relacionamentos para além dessa díade (relação triangular).

 Nesse sentido, Cassorla (2024) diz:

o processo adolescente implica, portanto, um penoso trabalho de elaboração de lutos que, se bem sucedido, transforma o indivíduo em um adulto capaz de viver na alteridade (isto é, separado do outro), aproveitando suas experiências para dar significado às vicissitudes da vida.”

É nessa dinâmica de perdas e ganhos que os conflitos com os pais aparecem e a denominação “aborrescente” se faz presente. A arrogância, prepotência, revolta e enfrentamento aos pais acontecem com mais frequência. Ora os progenitores são confrontados, ora permanecem o porto seguro. Segundo Levisky (2013) progressões e regressões ocorrem durante esse processo evolutivo, assim como períodos críticos que possibilitam a emergência de novas atitudes e relações inter e intrapsíquicas, as quais dão lugar a um processo mental dinâmico e criativo. Não é incomum que crianças, até então tranquilas, passem a ser adolescentes como atitudes inadequadas. Eles ainda estão se reorganizando e acabam agindo por impulso. Ainda não tem condições egóicas para lidar com tamanha intensidade de pulsões e as consequências emocionais e comportamentais.  

Na maioria das famílias, as crises ocorrem em mão dupla. Os adolescentes tendo que se ver com todas as mudanças e os pais enfrentando outras. Para os pais, fica a tarefa de fazer o luto dos pais de uma criança e se aprender a ser pais de um (a)  adolescente. A função de autoridade permanece e é de extrema importância, no entanto, a forma de exercer precisa ser alterada. É preciso dar ao jovem espaço físico e mental para que ele possa buscar objetos com que se identifique. É complexo e sutil o limite entre dar espaço e ser invasivo, não há uma régua exata que identifique onde os pais devem parar. Por isso, o ideal é que os pais estejam sempre atentos e ao alcance dos adolescentes quando estes demonstrarem suas inseguranças e dificuldades, contribuindo para que ele consiga desenvolver seus sentimentos de confiança e integração do self. Levisky (2013) diz que:

“Não se trata de serem pais e filhos perfeitos, mas de poderem aceitar-se como pais, com qualidade e falhas, e aprenderem a lidar, tolerar e compreender as qualidades e falhas dos filhos.”

Concomitante a tudo isso, amigos tornam-se cada vez mais importantes e cúmplices. A busca por um grupo em que possam se sentir incluídos e reconhecidos é a bola da vez. O adolescente oscila entre se manter naquilo que ele tem como referência dos pais e ceder imposições sociais. Eles podem até sentir-se culpado ao perceber que o quê receberam dos pais até então agora não lhes serve mais, mas é o movimento natural e esperado que eles se diferenciem e busquem outro mundo para chamar de seu.

Somado a esse turbilhão de acontecimentos na vida dos adolescentes, ainda precisamos estar atentos à invasão das redes sociais. Na série Adolescência, fica claro que o uso inadequado da rede acentua comportamentos agressivos, bullying e preconceitos. Para o adolescente que ainda não tem um aparato mental maduro o suficiente para enfrentar ataques ao  próprio EU, a rede torna-se um local perigoso e para se defender, alguns jovens deprimem, outros atacam.

Alguns telespectadores questionaram a presença ou até mesmo a ausência dos pais na vida do Jamie. Inclusive o último episódio é praticamente sobre isso do ponto de vista dos próprios pais. Não é minha intenção debater sobre isso, mas salientar como é mesmo difícil definir entre respeito e invasão do espaço para o adolescente. Não entrar no quarto do filho para ver o que ele estava fazendo foi entendido como atitude de respeito ao espaço dele, mas após o crime, fica claro que os pais não tinham a dimensão do que estava acontecendo lá dentro. Com o acesso a internet o quarto dos adolescentes passa a ser um ambiente mais perigoso que estar na rua. Como dito acima, os pais têm que exercer sua autoridade e definir de forma clara quais são os limites permitidos. Primeiro o limite tem que vir de fora para que depois seja internalizado. 

REFERÊNCIAS
CASSORLA, R. M. S. A turbulência adolescente. Estudos psicanalíticos. Blucher, 2024.
LEVISKY, D. L. Adolescência. Reflexões psicanalíticas. Zagodoni Editora,  2013.
Série Adolescência. Netflix. 2025

Renata Yuri Nakachima, Psicóloga atuante na clínica. Formada pela UFSCar. Especialização em Teorias e Técnicas Psicanalíticas pelo IEP-RP. Membro do Instituto de Estudos Psicanalíticos de Ribeirão Preto- IEPRP