Cora Sophia Schroeder Chiapello (1)
Pretendo em breves linhas reproduzir algumas ideias que Suad (2) desenvolveu durante um seminário clínico- teórico. Trinta anos não diminuíram a importância destas reflexões.
O atraso na chegada do apresentador do caso clínico fez com que alguns temas fossem se introduzindo espontaneamente no grupo, levando-o aos poucos a reflexões sobre o ensino e a prática da psicanálise no momento atual.
No decorrer das dúvidas surgidas no grupo, Suad fala de sua ideia de propor aos candidatos iniciando sua formação analítica. Tudo que aprendessem, deveria converter para dois temas centrais, a partir dos quais e em torno dos quais os alunos deveriam convergir todo conhecimento que estavam adquirindo. Suad chamou esta prática de “efeito pião” que era usado por um antigo professor no seu tempo de universidade.
Os dois temas eram os seguintes:
- Conflito Psíquico
- Determinismo Psíquico

Isto significava que todo conhecimento teórico deveria convergir para um destes dois temas escolhidos. O objetivo seria ao longo do tempo obter um resultado agregador, centralizador e unificador das ideias assimiladas, tornando o pensamento menos cindido e desorganizado. Suad mostra como estas questões básicas, contidas no desenvolvimento dos temas, estão sempre voltando como centro nas discussões teórico científicas. Um dos participantes questiona como saber em qual dos dois colocar o pensamento “pião”. E Suad concorda que não é fácil mesmo e que esta história de ensinar psicanálise é muito complicada, mesmo, levando a frequentes crises. Diz ela: “O importante é sempre poder reencontrar o essencial. E aí as crises podem ser enriquecedoras, consolidando o arcabouço que a suporta.”
Em seguida a uma discussão sobre como estar em sintonia com os princípios básicos da psicanálise, Suad traz uma questão a seu ver bastante séria: a de que, na verdade, “a psicanálise é limitada a um número muito pequeno de pessoas. Vencer o conflito perene entre a força dos desejos e o respeito às leis de convívio social exige que a estrutura egóica tenha tido oportunidades propícias para a renúncia instintiva. E aí caímos no ponto central do ser humano, que é o conflito psíquico e seus desafios ao Ego. E sabemos que todo trabalho psicanalítico é o da transformação do inconsciente “coisa” que não admite frustração, em palavras possibilitadoras da transformação da coisa em si em possibilidades infinitas de transformação.” Para Suad, as pessoas com condições internas para enfrentarem todo este processo de reestruturação são raras. As pessoas em geral procuram a psicanálise como busca de se evadirem da dor e, na maioria das vezes, elas tentam evacuar no analista todo um conflito psíquico que elas não suportam. O problema é que neste caso, tudo que o analista pode fazer é compreender o conflito e transformá-lo em ideias pensáveis e libertadoras do determinismo do desejo.
Compreendi a partir daí a importância de saber distinguir um indivíduo capaz de fazer análise daquele em que tudo que pode ser feito é ouvir, propor reflexões, conter, o que já não é pouco. Mas deveriam os institutos formadores prepararem os analistas para estes pacientes? Diz Suad que é uma proposta que existe. Porque será que se um paciente tem uma frequência semanal de 4 ou mesmo 5 vezes significa estar fazendo uma análise? Ou alguém que venha com uma frequência semanal de duas vezes não está em processo analítico? Ora, ainda que o número de sessões importe, o que define o processo analítico é ser essencialmente um processo de conhecimento e de relação profunda. É através de um vínculo muito especial que duas mentes vivem em sua plena individualidade e se unem para transformações mútuas e reformulações em expansões inusitadas e imprevisíveis
Portanto, a questão de estar ou não sendo psicanálise é a de que esteja presente no par condições mentais para o processo analítico. E, como foi dito acima, nada impede que o analista ajude a pessoa que o procurou com o objetivo de resolver questões práticas ou encontrar um meio mais saudável de lidar com sua dor psíquica. Mas sabendo que não está praticando psicanálise.
Esta discussão tão importante levou Suad a propor pensarmos na crise da psicanálise. Estaria a psicanálise em crise? Deveria ser mais e mais substituída por terapias menos profundas ou mesmo pela farmacologia? Não, propõe Suad, a psicanálise não está em crise. E esclarece que nunca tivermos uma explosão de artigos de tanta riqueza e profundidade como agora. Na verdade, diz ela, o conhecimento analítico está em plena expansão. A psicanálise não altera a fragilidade da condição humana. A representabilidade progressiva das pulsões e da dor são aliviantes e enriquecedoras, mas a duro preço. É muito difícil tolerar os limites, a dor mental inerente ao existir de uma mente sempre em conflito.
Suad prossegue: “Quando a pessoa fica com mágoa por não ter feito diferente do que pôde fazer há 20 anos, ela está usando de pensamento onipotente e mesmo arrogância, pois acredita que ela já deveria ter há 20 anos as condições que ela tem hoje. É o contato constante com a limitação humana. A psicanálise traz ferramentas de luta, mas jamais eliminará a luta”.
Acabamos por não entrar no caso clínico. Estávamos tendo uma reunião do mais alto valor. Por isso, decidi transcrevê-la em seguida.
“As instituições agregadoras e construtivas estão cedendo lugar cada vez mais a uma situação anárquica e de dissociação interna, com sério enfraquecimento do Ego. A única saída possível é a da reflexão, da reconsideração dos valores e a do trabalho integrador, ainda que sofrido e limitado, que a psicanálise oferece. Cada um terá dela aquilo que puder. Mas ela representa um movimento de busca do conhecimento essencial para a sobrevivência mesma do homem no planeta.”
Ribeirão Preto, 08 de abril de 2026
(1) Cora Sophia Schroeder Chiapello, ainda exercendo atividade profissional, é membro efetivo da SBPSP e participou da formação de inúmeros estudantes de psicologia da USPRP e do curso de Suad, além da produção de vários trabalhos científicos.
(2) A Sra Suad Haddad de Andrade foi membro efetivo e analista didata da SBPSP e da SBPRP. Foi membro fundador da SBPRP e suas ideias contribuíram grandemente para a expansão do pensamento psicanalítico e sua personalidade ímpar ajudou a formar inúmeros analistas. Foi criadora também do Curso de formação psicanalítica Suad de Andrade, que, durante sua direção, trouxe enorme crescimento para os que dele participaram