Cordel da perna cabeluda

Roberta Rodrigues de Almeida

Recomendo que o filme seja assistido antes de ler para melhor compreensão e por conter spoilers.

Grande parte das pessoas que perdem um membro ainda podem senti-lo mesmo depois da perda. Diferente do que se imagina, o membro não é sentido apenas pela memória de um dia tê-lo possuído, mas sim nos detalhes do dia a dia. Isso pode se dar com a sensação, por exemplo, de flexionar a área perdida, sentir irritação de uma pulseira no braço que perdeu e, também diversos tipos de dores no membro que já não existe. Estudos fisiológicos explicam tal fenômeno nos mostrando que existe uma espécie de mapa do organismo em nosso cérebro, que não se desliga tão rapidamente como poderíamos desejar. (SIQUEIRA, 2025).

No filme O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, é retratado a lenda da perna cabeluda, o que de forma bem concreta poderia representar essa tentativa de cisão de um membro que passa a ter vida própria e faz e acontece. A diferença é que, neste caso, de forma perversa, se ignora o corpo que possui nome, história e, portanto, sente. Como Freud (1926/1996) bem teorizou, forma-se, então, um compromisso, no caso uma lenda, que se não pode ser pensada, ficará encriptada e será transmitida como um fantasma por muitas gerações. O filme “tira sarro” das histórias criadas e divulgadas pelos jornais sobre a lenda, mas não podemos esquecer que temos o privilégio de estarmos afastados o suficiente da época em que se passa a história para enxergarmos o que está em jogo: controle, censura e medo.

Mas, como isso se dá quando o membro não é a perna, nem o braço e, sim, uma pessoa? Se pegarmos a referência da síndrome do membro fantasma, podemos nos aproximar do tamanho da dor que pode ser ter uma pessoa arrancada de sua vida, sem possibilidade de investigação, punição e reparação. A perda também não será sentida, inicialmente, apenas pela memória do membro, mas por cada detalhe do cotidiano. Lembro de uma pessoa que se deu conta da perda de um ente querido e muito próximo apenas meses após sua morte em uma situação rotineira de seu dia a dia, que ao ver algo que ambos compartilhavam de afinidade, o chamou pelo nome. A dor sentida após essa percepção foi brutal.

Isso pode nos ajudar a entender, para mim, a frase mais triste do filme. Quando o filho de Marcelo diz que está começando a conseguir esquecer sua mãe, nós percebemos que, para ele, isso parece ser algo bom, ainda que se apresente como uma ameaça, afinal, em seguida, ele pede para que o pai venha logo. Imagino que para alguém com síndrome do membro fantasma, deixar de sentir o membro amputado deve ser de um alívio enorme, porém esse é apenas o começo da nova jornada de se enxergar sem o que era o conhecido, o habitual e, principalmente, o necessário.

Só pode ser lembrado o que foi realmente esquecido. Cindir é muito diferente de reprimir, que é muito diferente de esquecer. No livro Transgeracionalidade/Intergeracionalidade: holocausto e dores sociais, Ana Rosa Trachtenberg (2023) aborda a complexidade presente na história de pessoas que passaram por violência, precisando do segredo e do silêncio como amigos, pois integrar o acontecimento traumático pode gerar a ameaça de novamente traumatizar-se, podendo desorganizar e romper o psiquismo. Assim, há grandes chances de criação de gerações cripta, que não conseguem nomear o que viveram e gerações fantasma, que recebem o traumatismo como herança e tornam-se prisioneiros de sua pré-história.

No filme acompanhamos Armando-Marcelo com sua vida paralela e, mais do que assistirmos a cenas traumáticas por si só, sentimos o mal-estar, a desconfiança, a tensão constante e cortante no ar. Mesmo quando vemos a conversa entre Armando e Fernando, em que eles falam sobre a morte de sua mãe, não sabemos se podemos confiar no que está sendo dito. Não sabemos se se trata realmente da verdade dos fatos ou de uma verdade inventada para preservar o menino, ainda tão pequeno, da triste realidade.

Ao final, com Fernando já adulto dizendo para Flávia, estudante, que ela sabe mais da história de seu pai do que ele, percebemos que o silêncio foi o caminho possível. Se assim continuará sendo, ficamos sem saber. Caberá ao Fernando a decisão de levar adiante o desejo de percorrer ou não o caminho que ele parece saber da existência quando conta que ali onde está hoje, no hospital em que trabalha, antigamente era o cinema, no qual assistiu ao filme do tubarão. Lilian Hellman (2010 apud TRACHTENBERG,2023) escreve em seu livro “Pentimento” de forma esperançosa:

 À medida que o tempo passa, a tinta velha em uma
tela muitas vezes se torna transparente. Quando isso
acontece, é possível ver, em alguns quadros, as linhas
originais: através de um vestido de mulher surge uma
árvore, uma criança dá lugar a um cachorro, e um
grande barco não está mais em mar aberto. Isso se
chama pentimento, porque o pintor se arrependeu,
mudou de ideia. Talvez se pudesse dizer que a antiga
concepção, substituída por uma imagem ulterior,
é uma forma de ver, e ver de novo, mais tarde.

Penso que é isso também que Kleber Mendonça Filho nos convida a fazer com esse filme. Em uma entrevista, questionado sobre o desfecho do filme, ele diz (MOGNON, 2025): “Eu tentei escrever algo mais normal, mais tradicional, e não consegui nem passar da primeira página. Sendo eu um jornalista que já descobriu muita coisa em arquivos, filho de uma historiadora, faz total sentido que o filme caminhe para onde caminha. É uma escolha muito forte, muito sentimental.” Com um final mais palatável, poderíamos sair do filme e logo nos distrair com outra coisa. Não é o que acontece. Ele nos acompanha e vai ficando melhor a cada nova reflexão. Qual foi a sua?

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FREUD, Sigmund. Inibições, sintomas e ansiedade (1926). In: FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, [1996]. v. 20.

MOGNON, Mateus. Final explicado de O Agente Secreto: entenda o desfecho misterioso do filme brasileiro. TecMundo – Minha Série, 08 nov. 2025 (atualizado em 21 nov. 2025). Disponível em: https://www.tecmundo.com.br/minha-serie/602453-final-explicado-de-o-agente-secreto-entenda-o-desfecho-misterioso-do-filme-brasileiro.htm. Acesso em: 28 jan. 2026.

SIQUEIRA, Walérya. Síndrome do membro fantasma: como funciona, quadro clínico, tratamento e mais. Sanarmed, 23 abr. 2025. Disponível em: https://sanarmed.com/sindrome-do-membro-fantasma-colunistas/. Acesso em: 28 jan. 2026.

TRACHTENBERG, Ana Rosa Chait. Transgeracionalidade, intergeracionalidade: holocausto e dores sociais. São Paulo: Blucher, 2023.


Roberta Rodrigues de Almeida é Psicóloga Clínica formada pela UFTM, Especialista em Atenção Integral à Saúde pela USP-RP, Especialista em Teorias e Técnicas Psicanalíticas pelo IEP-RP e Especialista em Psicologia Clínica pelo CFP. Atualmente, diretora do departamento de Relações Institucionais do IEP-RP, psicoterapeuta de crianças, adolescentes e adultos, supervisora e co-criadora do Desculpa o Áudio Longo.