
Por: Ana Flávia de Oliveira Santos
Era uma vez. Não se sabe quando, nem onde. Nem aqui, nem agora. Uma imprecisão. A vez. Que, em sendo uma, era a chance. Que, inclusive, já passou, pois era-e-não-mais-é. Já que uma basta. E passa. Não havendo uma segunda. Vez que, realizada, essa uma, cessa.
Mas, e se por força de conjectura mental, “era uma vez” for uma matriz para o encontro analítico? Como uma narrativa. Como os contos! Uma ficção? “Once upon a time” como um sonho: uma vez no tempo. E, portanto, no espaço. Nem antes, nem agora. No limiar, onde tudo pode ser recontado. Nem aqui, nem lá. Distante no tempo… mas evocado. E suspenso. Ainda assim: aqui-e-agora. Nem eu ou você. E, ainda assim: nós. Pois, entre-nós, mundos e pensamentos convergem, eclipsam-se e colidem. Expandem-se! Perturbam-se também? Havendo condensações e deslocamentos. Disfarces, projeções, deslizamentos e imprecisões. Transferências, também.
Analisando – Vim. Volto?
Ana-lista: – Não sei de outra senão dessa vez.
Analisando: – Fazemos como? Só avisando?
Ana-lista: – Suavizando, podemos, sim, seguir. Mas não estaríamos minando a sua confiança na sua capacidade de suportar as agruras de ser quem você é?
Analisando: – Até amanhã.
Vê? É sempre uma. A vez. Não havendo segunda. Pois, se a esta se chega, já é uma a vez. E não outra. É a que temos! Nem aqui, nem agora. A análise: aqui-e-agora. Um sonho? Entre verdade e ficção. Uma narrativa. Precursora do encontro. “Era uma vez”, que convoca um passado. E o reencena, como se agora fosse. “Que conto nos conta?” (Gramacho, 2024). O manifesto. Pretendido universal, mas singular. Único! Inédito. Cuja escuta busca… o latente? Que urge em se revelar. E que se repete. Mas não se repõe ou compensa. Nem eu ou você. Uma dupla. Entre-nós.
Entre, pois. “Once upon a time” como um convite. Ou: era uma vez uma porta aberta. Ou, ainda, uma escuta que, à narrativa alheia, acrescenta-se previamente, tal como um sonho, “era uma vez…”. Atemporal, tal qual o inconsciente. Uma abertura. Uma fresta. Uma fenda, talvez? A mesma expressão do infantil. Ou de outrora. De outra-hora. E desta também? – Seria memória? Uma memória do futuro (Bion, 1996), talvez? Dos contadores de histórias e suas tantas tradições orais…
Eu, narradora de mim. Uma narrativa de tantos contos quanto cantos que nos contam. Que faz parte do nosso repertório. E compõe nosso universo tão singular. Seria este nosso “infinito particular” (Antunes; Brown; Monte, 2006)? Que se atualiza em análise. E favorece a oniricidade. Introduzindo uma área de experimentação. Convidando a conjecturas imaginativas. Aparecendo camadas. E tantos são os níveis interpretativos! Pois ora você é um e a analista outro personagem da narrativa, ora outro. Aquela que se inicia por: “era uma vez…”. E a sessão analítica se desenovela.
Ou não. Afinal, contraria a obrigatoriedade das versões dos contos que interrompem e suspendem a narrativa em dado ponto. E, embora nem todos os finais sejam felizes – nem ao menos sendo estes perseguidos! Nem prometidos. – como qualquer relação, oferece-se chance. A vez. De um encontro. Em um tempo, em um espaço. Aqui-e-agora. Que, então, torna-se outra, uma nova história.
A estória: era uma vez duas pessoas que se encontram. Como adverte Bion (2017), duas pessoas assustadas. Uma, o analisando, esperando que a outra, a analista, esteja menos assustada que ele. Quem sabe – sem promessas! – tornando “proveitoso um mau negócio” (Bion, 2000)…
Porque “era uma vez…”. E toda vez será uma. Pois haverá uma vez. Vez essa que, grávida, carrega um mundo e mesmo um futuro. Quem sabe até de “Mil e uma noites”… Já disse: sem promessas! Mas em cuja expressão acrescenta-se “uma [noite] além do infinito” (Borges, 1987). À semelhança de Van Gogh que, ao pintar “Noite Estrelada”, acrescentou uma noite a nossa existência (Gullar, 2015).
Pois “era uma vez…”. Como em uma análise. E, assim, talvez, entre narrativas e escuta daquilo que se repete – tal como nas estórias -, narrar seja uma maneira de adiar o fim. Ou a morte. Pois, ainda que não apague a dor, o sofrimento ou mesmo aquilo que se revela traumático, reinscreve-os, ofertando-lhes vez. Uma vez. Ao que foi. Ao que era. Sonhando-se o conto. E, por que não, o pranto?
___________________
ANTUNES, A.; BROWN, C.; MONTE, M. Infinito Particular. Rio de Janeiro: Phonomotor Records/EMI, v. 1, 2006.
BION, W. R. Uma memória do futuro: o passado apresentado – v. II. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
BION, W. R. Seminários na clínica Tavistock. São Paulo: Blucher, 2017.
BORGES, J. L. Sete Noites. São Paulo: Max Limonad, 1987
GRAMACHO, L. Que conto nos conta? A literatura inspirando a prática clínica. Salvador: Solisluna Editora, 2024.
GULLAR, F. Arte como alquimia. Folha de São Paulo, São Paulo, 19 abr. 2015.