Autores clássicos da psicanálise (João Vitor Quintino, 2025)

Por que estudar os clássicos?

“Quem não lê, aos 70 anos terá vivido só uma vida. Quem lê terá vivido
5 mil anos. A leitura é uma imortalidade de trás para frente.”
Umberto Eco

Ítalo Calvino (1993), em seu estimulante texto “Por que ler os clássicos”, ensaio de abertura de seu livro homônimo, discursa a respeito da relevância de se ler os escritores, poetas e cientistas que muito contribuíram para a sua vida, constituindo seus eleitos. Para tanto, busca definir o que seriam os clássicos, aqueles textos, no senso comum, estabelecidos como referenciais a serem lidos, relidos e consultados.

Em sua enumeração de 14 definições possíveis, inicia que, em geral, clássico diz-se daquele texto de que se ouve referir-se “estar relendo”. Complementa que a experiência pode ser muito diferente ao se ler na maturidade em relação à juventude, dada a maior condição de apreciação de níveis e significados contidos no texto. Pois a (re)leitura em diferentes fases da vida promove vivências significativas: o leitor é outro. Motivo pelo qual o autor sugere revistar as obras marcantes lidas na mocidade.

Caminhando na esteira das suas observações, o autor encontra uma área de indeterminação, propondo que mesmo uma primeira leitura é, na verdade, uma releitura, já vivenciada pela experiência, seja pessoal ou compartilhada culturalmente, trazendo as marcas de leituras pregressas e suas inscrições culturais. Decorreria também que a releitura seria sempre de descoberta tal qual a inicial, como se o texto se descortinasse no momento mesmo em que é lido, como se fosse a primeira vez. Pois um clássico nunca cessaria de dizer o que contém, encerra em si. Posto que aberto às ressonâncias dos tempos e ao porvir.

Além disso, segundo Calvino (1993), reafirmaria aquilo que conhecíamos e não imaginávamos sabido. Os clássicos provocariam críticas, cujas divergências ao mesmo tempo seriam repelidas, revelando sua origem e relação de pertinência. Pois clássico seria aquele texto que, por mais que pensemos conhecido, mais se revela inesperado, novo e inédito ao ser de fato lido, estabelecendo com o leitor uma relação pessoal. E, ainda que clássico, pode ser incorporado de maneira particular por quem o lê, em relação ao qual não se pode permanecer indiferente, ainda que em virtude de contraste.

Antecederia outros textos também clássicos que, ao se lê-los, não se poderia deixar de reconhecer-lhes o lugar na genealogia. Relegaria a atualidade à posição de “barulho de fundo”, do qual não se pode prescindir. Ao mesmo tempo em que o clássico permanece como um rumor, ainda que se apresente uma atualidade incompatível (Calvino, 1993).

Nesta mesma seara dos clássicos, ao lado da literatura, podemos incluir os textos de autores da Psicanálise, posto que as mesmas definições lhes estendem e abarcam – sem contar o diálogo e intertextualidade que estes mantêm com os textos literários. – Considerados clássicos tanto pela abertura inaugural que promoveram quanto pela releitura influente, inspiradora e fértil que até na atualidade propiciam, em um se desdobrar em múltiplas significações, comportando aproximações e distanciamentos, bem como releituras que se revelam experiências até mesmo inéditas. Assim, revisitá-los seria uma experiência, inclusive para se perceber:

Se os livros permaneceram os mesmos (mas também
eles mudam, à luz de uma perspectiva histórica diferente),
nós com certeza mudamos, e o encontro é um
acontecimento totalmente novo (Calvino, 1993, p. 11).

E, para todo livro considerado clássico, há um leitor para quem o texto ocupa esse lugar de relevância e referência. Alguém que o lê, como pontua Ogden (2014, p. 22), transitivamente, “[…] uma experiência de leitura em que fazemos algo ativamente ao texto, tornando-o nosso […]”, acrescentando algo que ainda não estava ali antes de se ler, ou redescobrindo o que nele estava à espera por ser descoberto.

Assim, por que ler/estudar os clássicos – textos e autores – da Psicanálise inglesa, você poderia perguntar. E responderia em coro com Calvino (1993, p. 14): “A única razão que se pode apresentar é que ler os clássicos é melhor do que não ler os clássicos.”, simplesmente. Podemos não apenas (re)descobrir o pensamento desses autores, como nos redescobrirmos através deles, usando a experiência para, como pensa Ogden (2014, p. 23), “[…] ser lido pela escrita […] para ler a si próprio […]”, em uma relação muito viva entre escrita e leitor. “E os clássicos servem para entender quem somos e aonde chegamos […]” (Calvino, 1993, p. 16) e, quem sabe, para onde vamos. Pois são mais do uma leitura de formação; são, sobretudo, uma leitura da e para a vida. Para “[…] inventar para cada um de nós uma biblioteca ideal de nossos clássicos […]” (Calvino, 1993, p. 16), nosso referencial e o “eu mesmo” com cada paciente nosso ou em cada contexto de trabalho em que o pensamento psicanalítico pode adentrar e fazer-se atuante e presente.

Pois se diz que é clássico aquele texto que perdura e se sustenta no tempo, permanecendo no imaginário e na cultura. Não necessariamente como imutável, incontestável ou irretocável. Mas como fonte, origem, seiva bruta, possuindo um valor no tempo e no espaço, aberto, portanto, a retomadas, ressignificações, modificações e ampliações. Ainda que imortalizado. Cujas releituras permitem redescobertas que se abrem a novas compreensões e horizontes. Parecendo mesmo o primeiro contato, pois, com aqueles olhos, o daquela experiência, jamais fora lido antes. Posto que um clássico, como nos assevera Calvino (1993, p. 9), “[…] é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.”, reatualizando-se e levando a uma contínua e constante experiência de encontro e abertura, gestando e gerando novos pensamentos.

Um professor compartilhou, certa vez, que André Green, ao ser perguntado sobre qual a novidade em Psicanálise, teria retorquido: “Freud!”, vinheta que sincretiza a compreensão de clássico proposta por Calvino (1993). Ressignificando o termo, pois a sua relevância não se atém à data de nascença de seus escritos, mas as suas ressonâncias através dos tempos, dado seu caráter seminal, permanecendo atual. O que não significa que a Psicanálise inteira esteja encerrada e contida neste autor. Do contrário, representa a nascente, o embrião de um pensamento, cuja semeadura permitiu e ainda possibilita vários brotos em um contínuo desabrochar. A quem se atribui a parentalidade de um pensamento original e fundante. Do qual tantos outros textos e autores, também clássicos e mesmo contemporâneos, continuam bebendo, e a partir do qual propuseram desdobramentos, transformações e/ou expansões, retornando ao clássico, no qual se sustentam e, paradoxalmente, do qual se destacam.

Um autor o qual se relê e ainda se encontra algo não anteriormente observado. Contendo contribuições insuspeitadas. Fundamentais para se compreender, pensar e se situar a humanidade e a sua história. Pois clássico é clássico e dispensa mais explicações. Cujo pensamento forma o tecido do qual somos feitos. E a partir do qual pensamos. E se ramifica, ecoa infinitamente. Reverberando no trabalho de todos nós. Porque, sem dúvida, os textos e seus autores, por mais que os pensemos conhecidos, ainda têm muito a nos dizer.

E porque sua fonte nunca se esgota, convidamos você para (re)ler, (re)descobrir e estudar os clássicos da Psicanálise inglesa conosco. E, quem sabe, aceitando o chamado de Calvino (1993), reinventar sua biblioteca pessoal com os seus eleitos.

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CALVINO, I. Por que ler os clássicos (1981). In: CALVINO, I. Por que ler os clássicos? São Paulo: Companhia das Letras, 1993. p. 9-16.

OGDEN, T. Leituras Criativas: Ensaios sobre obras analíticas seminais. São Paulo: Editora Escuta, 2014.

Autora: Ana Flávia de Oliveira Santos é Psicóloga Clínica (CRP 06/90086) formada pela FFCLRP-USP, Mestre em Ciências – Área: Psicologia pela mesma Faculdade e Especialista em Psicologia Clínica pelo CFP. É Membro da Diretoria de Ensino – gestão 2020/21 e Titular do IEP-RP.

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