“Mãos do desenho” (1948) de Maurits Cornelis Escher


Hoje, gostaria de compartilhar minha experiência como mãe e como, a partir disso, tenho pensado algumas questões da clínica psicanalítica, especialmente sobre a clínica de crianças.


Meu “delicinha” (como eu o chamo e o sinto) foi um filho muito desejado. Percorremos uma gestação muito tranquila e animada. Porém, no dia do parto, recebemos a notícia de que ele tem uma doença rara, o que foi um susto muito desesperador. Por isso, ele ficou internado (e eu também) na UTI pelos 35 primeiros dias de vida, sendo monitorado de perto, com muitos aparelhos e dispositivos que ajudaram a manter o corpo dele vivo. E a mente dele? E a minha mente? Como permaneceram vivas?


De acordo com Winnicott, o bebê tem uma potência inata para se desenvolver, mas é preciso um ambiente suficientemente bom para que isso aconteça. Durante a internação, foi preciso que eu sustentasse a vida psíquica do meu filho, assim como foi necessário também que ele sustentasse minha esperança e fé na vida. Acredito que isso aconteceu através da nossa voz: eu constantemente conversando e cantando, apesar de ele ter ficado entubado e sedado, e ele, gritando e chorando, em grandes protestos e ao mesmo tempo, demonstrando a potência para viver. Embasados em Victor Guerra, eu e ele encontramos nosso ritmo para que fosse possível o desenvolvimento de um sujeito e a manutenção da vida psíquica materna.


Ainda no hospital, tivemos o privilégio de ser cuidados por uma equipe multidisciplinar realmente integrada, extremamente humanizada, preocupada com as particularidades da nossa relação e principalmente com as individualidades e tempo do meu filho. Dessa forma, pudemos contar com o grande conhecimento e a vasta experiência da equipe. E o que mais me chamou a atenção foi a importância que a equipe deu para os meus conhecimentos e as minhas teorias como mãe daquela criança em específico, sempre levando a minha maternidade (possível e real) em conta para o tratamento dele.


Além disso, eu também pude contar com uma rede de apoio familiar e de amigos sólida, amorosa e muito presente. Essas pessoas me ajudaram muito em questões práticas do meu cotidiano, que ficou completamente conturbado, assim como estavam presentes através de mensagens e ligações, mesmo que naquele momento tenha sido muito difícil dar a contrapartida do afeto recebido. Esse era o meu holding. Uma mãe também precisa ser cuidada.


Com toda a turbulência da experiência de UTI, cresceu um sentimento de isolamento do mundo real, mas por outro lado, uma identificação e pertencimento junto das outras mães de UTI. Almoçávamos juntas, enquanto compartilhávamos vários sentimentos, tecendo uma rede cheia de nós (nós como crises, mas também como pronome pessoal das mulheres presentes), capaz de sustentar nossos corpos exaustos e de auxiliar na elaboração daquela situação, como em um espelho analítico, e que, apesar de estarmos rodeadas de sensações de morte, a vida prevalecia.


Considerando a clínica psicanalítica de crianças (e de adultos também), quando existe potência de vida dentro do paciente, é possível promover seu desenvolvimento. Torna-se uma dupla potente.


As teorias maternas sobre o sofrimento de seus filhos devem sempre ser levadas em conta para o melhor desenvolvimento da análise.


Sobre a rede de apoio, como fazem os pais, se estão superatarefados e distantes da família extensa? Como é possível estar realmente presente na vida dos filhos com tanta pressão em relação à produtividade, sem possibilidades de contar com vizinhos ou com a comunidade, se vivemos sob as regras do individualismo e de que a família é a única responsável por seus membros? Os pacientezinhos chegam nas nossas clínicas denunciando também um sofrimento familiar.


O “espelho” na análise serve para nos conhecermos e reconhecermos através do outro. A criança, em sua análise, reconhece o infantil no analista, identificando-se, mas também sendo inspirada a desenvolver suas potências, pela companhia viva.


Hoje consigo relacionar as teorias psicanalíticas com essas experiências vividas. Assim, eu percebo o quanto as teorias só fazem sentido se elas surgirem das experiências (foi assim que Freud elaborou a Psicanálise). Então, é preciso estar inteiramente presente com o paciente, livre das teorias já estudadas, e formar novas teorias sobre aquele encontro e aquela dupla. Já dizia Bion.


Por fim, como em uma licença poética, eu não coloquei data nas referências, pois as teorias psicanalíticas aqui expostas são baseadas na vida e no inconsciente, que nas suas concretudes tão efêmeras, são atemporais.

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Por Lia Brioschi Soares, psicóloga, doutora em ciências pela EERP/USP, especialista em Psicologia Clínica, membro do Instituto de Estudos Psicanalíticos de Ribeirão Preto e mãe do Guguinha

Referências

Bion, W. R. Atenção e interpretação. Rio de Janeiro: Imago, 2006.
Freud, S. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
Guerra, V. Vida psíquica do bebê: a parentalidade e os processos de subjetivação. São Paulo: Blucher, 2022.
Winnicott, D. W. Textos selecionados: da pediatria à psicanálise. Rio de Janeiro: F. Alves, 1988.

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